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quarta-feira, 4 de abril de 2007

Conceitos de Webber

Max Weber – Vida e Obra
Pondo-se de lado alguns trabalhos precursores, como os de Maquiavel (1469-1527) e Montesquieu (1689-1755), o estudo científico dos fatos humanos somente começou a se constituir em meados do século XIX. Nessa época, assistia-se ao triunfo dos métodos das ciências naturais, concretizadas nas radicais transformações da vida material do homem; operadas pela Revolução Industrial. Diante dessa comprovação inequívoca da fecundidade do caminho metodológico apontado por Galileu (1564-1642) e outros, alguns pensadores que procuravam conhecer cientificamente os fatos humanos passaram a abordá-los segundo as coordenadas das ciências naturais. Outros, ao contrário, afirmando a peculiaridade do fato humano e a conseqüente necessidade de uma metodologia própria. Essa metodologia deveria levar em consideração o fato de que o conhecimento dos fenômenos naturais e um conhecimento de algo externo ao próprio homem, enquanto nas ciências sociais o que se procura conhecer é a própria experiência humana. De acordo com a distinção entre experiência externa e experiência interna, poder-se-ia distinguir uma série de contrastes metodológicos entre os dois grupos de ciências. As ciências exatas partiriam da observação sensível e seriam experimentais, procurando obter dados mensuráveis e regularidades estatísticas que conduzissem à formulação de leis de caráter matemático.
As ciências humanas, ao contrário, dizendo respeito à própria experiência humana, seriam introspectivas, utilizando a intuição direta dos fatos, e procurariam atingir não generalidades de caráter matemático, mas descrições qualitativas de tipos e formas fundamentais da vida do espírito.
Os positivistas (como eram chamados os teóricos da identidade fundamental entre as ciências exatas e as ciências humanas) tinham suas origens sobretudo na tradição empirista inglesa que remonta a Francis Bacon (1561-1626) e encontrou expressão em David Hume (1711-1776), nos utilitaristas do século XIX e outros. Nessa linha metodológica de abordagem dos fatos humanos se colocariam Augusto Comte (1798-1857) e Émile Durkheim (1858-1917), este considerado por muitos como o fundador da sociologia como disciplina científica. Os antipositivistas, adeptos da distinção entre ciências humanas e ciências naturais, foram sobretudo os alemães, vinculados ao idealismo dos filósofos da época do Romantismo, principalmente Hegel (1770-1831) e Schleiermacher (1768-1834). Os principais representantes dessa orientação foram os neokantianos Wilhelm Dilthey (1833-1911), Wilhelm Windelband (1848-1915) e Heinrich Rickert (1863-1936). Dilthey estabeleceu uma distinção que fez fortuna: entre explicação (erklären) e compreensão (verstehen). O modo explicativo seria característico das ciências naturais, que procuram o relacionamento causal entre os fenômenos. A compreensão seria o modo típico de proceder das ciências humanas, que não estudam fatos que possam ser explicados propriamente, mas visam aos processos permanentemente vivos da experiência humana e procuram extrair deles seu sentido (Sinn). Os sentidos (ou significados) são dados, segundo Dilthey, na própria experiência do investigador, e poderiam ser empaticamente apreendidos na experiência dos outros.
Dilthey (como Windelband e Rickert), contudo, foi sobretudo filósofo e historiador e não, propriamente, cientista social, no sentido que a expressão ganharia no século XX. Outros levaram o método da compreensão ao estudo de fatos humanos particulares, constituindo diversas disciplinas compreensivas. Na sociologia, a tarefa ficaria reservada a Max Weber.
Uma educação humanista apurada
Max Weber nasceu e teve sua formação intelectual no período em que as primeiras disputas sobre a metodologia das ciências sociais começavam a surgir na Europa, sobretudo em seu país, a Alemanha. Filho de uma família da alta classe média, Weber encontrou em sua casa uma atmosfera intelectualmente estimulante. Seu pai era um conhecido advogado e desde cedo orientou-o no sentido das humanidades. Weber recebeu excelente educação secundária em línguas, história e literatura clássica. Em 1882, começou os estudos superiores em Heidelberg; continuando-os em Göttingen e Berlim, em cujas universidades dedicou-se simultaneamente à economia, à história, à filosofia e ao direito. Concluído o curso, trabalhou na Universidade de Berlim, na qual idade de livre-docente, ao mesmo tempo em que servia como assessor do governo. Em 1893, casou-se e; no ano seguinte, tornou-se professor de economia na Universidade de Freiburg, da qual se transferiu para a de Heidelberg, em 1896. Dois anos depois, sofreu sérias perturbações nervosas que o levaram a deixar os trabalhos docentes, só voltando à atividade em 1903, na qualidade de co-editor do Arquivo de Ciências Sociais (Archiv tür Sozialwissenschatt), publicação extremamente importante no desenvolvimento dos estudos sociológicas na Alemanha. A partir dessa época, Weber somente deu aulas particulares, salvo em algumas ocasiões, em que proferiu conferências nas universidades de Viena e Munique, nos anos que precederam sua morte, em 1920.
Compreensão e explicação
Dentro das coordenadas metodológicas que se opunham à assimilação das ciências sociais aos quadros teóricos das ciências naturais, Weber concebe o objeto da sociologia como, fundamentalmente, "a captação da relação de sentido" da ação humana. Em outras palavras, conhecer um fenômeno social seria extrair o conteúdo simbólico da ação ou ações que o configuram. Por ação, Weber entende "aquela cujo sentido pensado pelo sujeito jeito ou sujeitos jeitos é referido ao comportamento dos outros; orientando-se por ele o seu comportamento". Tal colocação do problema de como se abordar o fato significa que não é possível propriamente explicá-lo como resultado de um relacionamento de causas e efeitos (procedimento das ciências naturais), mas compreendê-lo como fato carregado de sentido, isto é, como algo que aponta para outros fatos e somente em função dos quais poderia ser conhecido em toda a sua amplitude.
O método compreensivo, defendido por Weber, consiste em entender o sentido que as ações de um indivíduo contêm e não apenas o aspecto exterior dessas mesmas ações. Se, por exemplo, uma pessoa dá a outra um pedaço de papel, esse fato, em si mesmo, é irrelevante para o cientista social. Somente quando se sabe que a primeira pessoa deu o papel para a outra como forma de saldar uma dívida (o pedaço de papel é um cheque) é que se está diante de um fato propriamente humano, ou seja, de uma ação carregada de sentido. O fato em questão não se esgota em si mesmo e aponta para todo um complexo de significações sociais, na medida em que as duas pessoas envolvidas atribuem ao pedaço de papel a função do servir como meio de troca ou pagamento; além disso, essa função é reconhecida por uma comunidade maior de pessoas.
Segundo Weber, a captação desses sentidos contidos nas ações humanas não poderia ser realizada por meio, exclusivamente, dos procedimentos metodológicos das ciências naturais, embora a rigorosa observação dos fatos (como nas ciências naturais) seja essencial para o cientista social. Contudo, Weber não pretende cavar um abismo entre os dois grupos de ciências. Segundo ele, a consideração de que os fenômenos obedecem a uma regularidade causal envolve referência a um mesmo esquema lógico de prova, tanto nas ciências naturais quanto nas humanas. Entretanto, se a lógica da explicação causal é idêntica, o mesmo não se poderia dizer dos tipos de leis gerais a serem formulados para cada um dos dois grupos de disciplinas. As leis sociais, para Weber, estabelecem relações causais em termos de regras de probabilidades, segundo as quais a determinados processos devem seguir-se, ou ocorrer simultaneamente., outros. Essas leis referem-se a construções de “comportamento com sentido” e servem para explicar processos particulares. Para que isso seja possível; Weber defende a utilização dos chamados “tipos ideais”, que representam o primeiro nível de generalização de conceitos abstratos e, correspondendo às exigências lógicas da prova, estão intimamente ligados à realidade concreta particular.
O legal e o típico
O conceito de tipo ideal corresponde, no pensamento weberiano, a um processo de conceituação que abstrai de fenômenos concretos o que existe de particular, constituindo assim um conceito individualizante ou, nas palavras do próprio Weber, um “conceito histórico concreto”. A ênfase na caracterização sistemática dos padrões individuais concretos (característica das ciências humanas) opõe a conceituação típico-ideal à conceituação generalizadora, tal como esta é conhecida nas ciências naturais.
A conceituação generalizadora, como revela a própria expressão, retira do fenômeno concreto aquilo que ele tem de geral, isto é, as uniformidades e regularidades observadas em diferentes fenômenos constitutivos de uma mesma classe. A relação entre o conceito genérico e o fenômeno concreto é de natureza tal que permite classificar cada fenômeno particular de acordo com os traços gerais apresentados pelo mesmo, considerando como acidental tudo o que não se enquadre dentro da generalidade. Além disso, a conceituação generalizadora considera o fenômeno particular como um caso cujas características gerais podem ser deduzidas de uma lei.
A conceituação típico-ideal chega a resultados diferentes da conceituação generalizadora. O tipo ideal, segundo Weber, expõe como se desenvolveria uma forma particular de ação social se o fizesse racionalmente em direção a um fim e se fosse orientada de forma a atingir um e somente um fim. Assim, o tipo ideal não descreveria um curso concreto de ação, mas um desenvolvimento normativamente ideal, isto é, um curso de ação “objetivamente possível”. O tipo ideal é um conceito vazio de conteúdo real: ele depura as propriedades dos fenômenos reais desencarnando-os pela análise, para depois reconstruí-los. Quando se trata de tipos complexos (formados por várias propriedades), essa reconstrução assume a forma de síntese, que não recupera os fenômenos em sua real concreção, mas que os idealiza em uma articulação significativa de abstrações. Desse modo, se constitui uma “pauta de contrastação”, que permite situar os fenômenos reais em sua relatividade. Por conseguinte, o tipo ideal não constitui nem uma hipótese nem uma proposição e, assim, não pode ser falso nem verdadeiro, mas válido ou não-válido, de acordo com sua utilidade para a compreensão significativa dos acontecimentos estudados pelo investigador.
No que se refere à aplicação do tipo ideal no tratamento da realidade, ela se dá de dois modos. O primeiro é um processo de contrastação conceituai que permite simplesmente apreender os fatos segundo sua maior ou menor aproximação ao tipo ideal. O segundo consiste na formulação de hipóteses explicativas. Por exemplo: para a explicação de um pânico na bolsa de valores, seria possível, em primeiro lugar, supor como se desenvolveria o fenômeno na ausência de quaisquer sentimentos irracionais; somente depois se poderia introduzir tais sentimentos como fatores de perturbação. Da mesma forma se poderia proceder para a explicação de uma ação militar ou política. Primeiro se fixaria, hipoteticamente, como se teria desenvolvido a ação se todas as intenções dos participantes fossem conhecidas e se a escolha dos meios por parte dos mesmos tivesse sido orientada de maneira rigorosamente racional em relação a certo fim. Somente assim se poderia atribuir os desvios aos fatores irracionais.
Nos exemplos acima é patente a dicotomia estabelecida por Weber entre o racional e o irracional, ambos conceitos fundamentais de sua metodologia. Para Weber, uma ação é racional quando cumpre duas condições. Em primeiro lugar, uma ação é racional na medida em que é orientada para um objetivo claramente formulado, ou para um conjunto de valores, também claramente formulados e logicamente consistentes. Em segundo lugar, uma ação é racional quando os meios escolhidos para se atingir o objetivo são os mais adequados.
Uma vez de posse desses instrumentos analíticos, formulados para a explicação da realidade social concreta ou, mais exatamente, de uma porção dessa realidade, Weber elabora um sistema compreensivo de conceitos, estabelecendo uma terminologia precisa como tarefa preliminar para a análise das inter-relações entre os fenômenos sociais. De acordo com o vocabulário weberiano, são quatro os tipos de ação que cumpre distinguir claramente: ação racional em relação a fins, ação racional em relação a valores, ação afetiva e ação tradicional. Esta última, baseada no hábito, está na fronteira do que pode ser considerado como ação e faz Weber chamar a atenção para o problema de fluidez dos limites, isto é, para a virtual impossibilidade de se encontrarem “ações puras”. Em outros termos, segundo Weber, muito raramente a ação social orienta-se exclusivamente conforme um ou outro dos quatro tipos. Do mesmo modo, essas formas de orientação não podem ser consideradas como exaustivas. Seriam tipos puramente conceituais, construídos para fins de análise sociológica, jamais encontrando-se na realidade em toda a sua pureza; na maior parte dos casos, os quatro tipos de ação encontram-se misturados. Somente os resultados que com eles se obtenham na análise da realidade social podem dar a medida de sua conveniência. Para qualquer um desses tipos tanto seria possível encontrar fenômenos sociais que poderiam ser incluídos neles, quanto se poderia também deparar com fatos limítrofes entre um e outro tipo. Entretanto, observa Weber, essa fluidez só pode ser claramente percebida quando os próprios conceitos tipológicos não são fluidos e estabelecem fronteiras rígidas entre um e outro. Um conceito bem definido estabelece nitidamente propriedades cuja presença nos fenômenos sociais permite diferenciar um fenômeno de outro; estes, contudo, raramente podem ser classificados de forma rígida.
O sistema de tipos ideais
Na primeira parte de Economia e Sociedade, Max Weber expõe seu sistema de tipos ideais, entre os quais os de lei, democracia, capitalismo, feudalismo, sociedade, burocracia, patrimonialismo, sultanismo. Todos esses tipos ideais são apresentados pelo autor como conceitos definidos conforme critérios pessoais, isto é, trata-se de conceituações do que ele entende pelo termo empregado, de forma a que o leitor perceba claramente do que ele está falando. O importante nessa tipologia reside no meticuloso cuidado com que Weber articula suas definições e na maneira sistemática com que esses conceitos são relacionados uns aos outros. A partir dos conceitos mais gerais do comportamento social e das relações sociais, Weber formula novos conceitos mais específicos, pormenorizando cada vez mais as características concretas.
Sua abordagem em termos de tipos ideais coloca-se em oposição, por um lado, à explicação estrutural dos fenômenos, e, por outro, à perspectiva que vê os fenômenos como entidades qualitativamente diferentes. Para Weber, as singularidades históricas resultam de combinações específicas de fatores gerais que, se isolados, são quantificáveis, de tal modo que os mesmos elementos podem ser vistos numa série de outras combinações singulares. Tudo aquilo que se afirma de uma ação concreta, seus graus de adequação de sentido, sua explicação compreensiva e causal, seriam hipóteses suscetíveis de verificação. Para Weber, a interpretação causal correta de uma ação concreta significa que “o desenvolvimento externo e o motivo da ação foram conhecidos de modo certo e, ao mesmo tempo, compreendidos com sentido em sua relação”. Por outro lado, a interpretação causal correta de uma ação típica significa que o acontecimento considerado típico se oferece com adequação de sentido e pode ser comprovado como causalmente adequado, pelo menos em algum grau.
O capitalismo é protestante?
As soluções encontradas por Weber para os intrincados problemas metodológicos que ocuparam a atenção dos cientistas sociais do começo do século XX permitiram-lhe lançar novas luzes sobre vários problemas sociais e históricos, e fazer contribuições extremamente importantes para as ciências sociais. Particularmente relevantes nesse sentido foram seus estudos sobre a sociologia da religião, mais exatamente suas interpretações sobre as relações entre as idéias e atitudes religiosas, por um lado, e as atividades e organização econômica correspondentes, por outro.
Esses estudos de Weber, embora incompletos, foram publicados nos três volumes de sua Sociologia da Religião. A linha mestra dessa obra é constituída pelo exame dos aspectos mais importantes da ordem social e econômica do mundo ocidental, nas várias etapas de seu desenvolvimento histórico. Esse problema já se tinha colocado para outros pensadores anteriores a Weber, dentre os quais Karl Marx (1818-1883), cuja obra, além de seu caráter teórico, constituía elemento fundamental para a lufa econômica e política dos partidos operários; por ele mesmo criados. Por essas razões, a pergunta que os sociólogos alemães se faziam era se o materialismo histórico formulado por Marx era ou não o verdadeiro, ao transformar o fator econômico no elemento determinante de todas as estruturas sociais e culturais, inclusive a religião. Inúmeros trabalhos foram escritos para resolver o problema, substituindo-se o fator econômico como dominante por outros fatores, tais como raça, clima, topografia, idéias filosóficas, poder político. Alguns autores, como Wilhelm Dilthey, Ernst Troeltsch (1865-1923) e Werner Sombart (1863-1941), já se tinham orientado no sentido de ressaltar a influência das idéias e das convicções éticas como fatores determinantes, e chegaram à conclusão de que o moderno capitalismo não poderia ter surgido sem uma mudança espiritual básica, como aquela que ocorreu nos fins da Idade Média. Contudo, somente com os trabalhos de Weber foi possível elaborar uma verdadeira teoria geral capaz de confrontar-se com a de Marx.
A primeira idéia que ocorreu a Weber na elaboração dessa teoria foi a de que, para conhecer corretamente a causa ou causas do surgimento do capitalismo, era necessário fazer um estudo comparativo entre as várias sociedades do mundo ocidental (único lugar em que o capitalismo, como um tipo ideal, tinha surgido) e as outras civilizações, principalmente as do Oriente, onde nada de semelhante ao capitalismo ocidental tinha aparecido. Depois de exaustivas análises nesse sentido, Weber foi conduzido à tese de que a explicação para o fato deveria ser encontrada na íntima vinculação do capitalismo com o protestantismo: “Qualquer observação da estatística ocupacional de um país de composição religiosa mista traz à luz, com notável freqüência, um fenômeno que já tem provocado repetidas discussões na imprensa e literatura católicas e em congressos católicos na Alemanha: o fato de os líderes do mundo dos negócios e proprietários do capital, assim como os níveis mais altos de mão-de-obra qualificada, principalmente o pessoal técnica e comercialmente especializado das modernas empresas, serem preponderantemente protestantes”.
A partir dessa afirmação, Weber coloca uma série de hipóteses referentes a fatores que poderiam explicar o fato. Analisando detidamente esses fatores, Weber elimina-os, um a um, mediante exemplos históricos, e chega à conclusão final de que os protestantes, tanto como classe dirigente, quanto como classe dirigida, seja como maioria, seja como minoria, sempre teriam demonstrado tendência específica para o racionalismo econômico. A razão desse fato deveria, portanto, ser buscada no caráter intrínseco e permanente de suas crenças religiosas e não apenas em suas temporárias situações externas na história e na política.
Uma vez indicado o papel que as crenças religiosas teriam exercido na gênese do espírito capitalista, Weber propõe-se a investigar quais os elementos dessas crenças que atuaram no sentido indicado e procura definir o que entende por "espírito do capitalismo". Este é entendido por Weber como constituído fundamentalmente por uma ética peculiar, que pode ser exemplificada muito nitidamente por trechos de discursos de Benjamin Franklin (1706 - 1790), um dos líderes da independência dos Estados Unidos. Benjamin Franklin, representante típico da mentalidade dos colonos americanos e do espírito pequeno-burguês, afirma em seus discursos que “ganhar dinheiro dentro da ordem econômica moderna é, enquanto isso for feito legalmente, o resultado e a expressão da virtude e da eficiência de uma vocação”. Segundo a interpretação dada por Weber a esse texto, Benjamin Franklin expressa um utilitarismo, mas um utilitarismo com forte conteúdo ético, na medida em que o aumento de capital é considerado um fim em si mesmo e, sobretudo, um dever do indivíduo. O aspecto mais interessante desse utilitarismo residiria no fato de que a ética de obtenção de mais e mais dinheiro é combinada com o estrito afastamento de todo gozo espontâneo da vida.
A questão seguinte colocada por Weber diz respeito aos fatores que teriam levado a transformar-se em vocação uma atividade que, anteriormente ao advento do capitalismo, era, na melhor das hipóteses, apenas tolerada. O conceito de vocação como valorização do cumprimento do dever dentro das profissões seculares Weber encontra expresso nos escritos de Martinho Lutero (1483-1546), a partir do qual esse conceito se tornou o dogma central de todos os ramos do protestantismo. Em Lutero, contudo, o conceito de vocação teria permanecido em sua forma tradicional, isto é, algo aceito como ordem divina à qual cada indivíduo deveria adaptar-se. Nesse caso, o resultado ético, segundo Weber, é inteiramente negativo, levando à submissão. O luteranismo, portanto, não poderia ter sido a razão explicativa do espírito do capitalismo.
Weber volta-se então para outras formas de protestantismo diversas do luteranismo, em especial para o calvinismo e outras seitas, cujo elemento básico era o profundo isolamento espiritual do indivíduo em relação a seu Deus, ó que, na prática, significava a racionalização do mundo e a eliminação do pensamento mágico como meio de salvação. Segundo o calvinismo, somente uma vida guiada pela reflexão contínua poderia obter vitória sobre o estado natural, e foi essa racionalização que deu à fé reformada uma tendência ascética.
Com o objetivo de relacionar as idéias religiosas fundamentais do protestantismo com as máximas da vida econômica capitalista, Weber analisa alguns pontos fundamentais da ética calvinista, como a afirmação de que “o trabalho constitui, antes de mais nada, a própria finalidade da vida”. Outra idéia no mesmo sentido estaria contida na máxima dos puritanos, segundo a qual “a vida profissional do homem é que lhe dá uma prova de seu estado de graça para sua consciência, que se expressa no zelo e no método, fazendo com que ele consiga cumprir sua vocação”. Por meio desses exemplos, Weber mostra que o ascetismo secular do protestantismo “libertava psicologicamente a aquisição de bens da ética tradicional, rompendo os grilhões da ânsia de lucro, com o que não apenas a legalizou, como também a considerou como diretamente desejada por Deus”. E m síntese, a tese de Weber afirma que a consideração dó trabalho (entendido como vocação constante e sistemática) como o mais alto instrumento de ascese e o mais seguro meio de preservação da redenção da fé e do homem deve ter sido a mais poderosa alavanca da expressão dessa concepção de vida constituída pelo espírito do capitalismo.
É necessário, contudo, salientar que Weber, em nenhum momento considera o espírito do capitalismo como pura conseqüência da Reforma protestante. O sentido que norteia sua análise é antes uma proposta de investigarem que medida as influências religiosas participaram da moldagem qualitativa do espírito do capitalismo. Percorrendo o caminho inverso, Weber propõe-se também a compreender melhor o sentido do protestantismo, mediante o estudo dos aspectos fundamentais do sistema econômica capitalista. Tendo em vista a grande confusão existente no campo das influências entre as bases materiais, as formas de organização social e política e os conteúdos espirituais da Reforma, Weber salientou que essas influências só poderiam ser. confirmadas por meio de exaustivas investigações dos pontos em que realmente teriam ocorrido correlações entre o movimento religioso e a ética vocacional, Com isso “se poderá avaliar” - diz o próprio Weber – “em que medida os fenômenos culturais contemporâneos se originam historicamente em motivos religiosos e em que medida podem ser relacionados com eles”.
Autoridade e legitimidade
A aplicação da metodologia compreensiva à análise dos fenômenos históricos e sociais, por parte dê Weber, não sê limitou às relações entre o protestantismo ê o sistema capitalista. Inúmeros foram seus trabalhos dê investigação empírica sobre assuntos econômicos ê políticos. Entre os primeiros, salientam-se A Situação dos Trabalhadores Agrícolas no Elba ê A Psicofisiologia do Trabalho Industrial. Entre os segundos, devem ser ressaltadas suas análises críticas da seleção burocrática dos líderes políticos na Alemanha dos Kaiser Guilherme I e II ê da despolitização levada a cabo com a hegemonia dos burocratas. Para a teoria política em geral, contudo, foram mais importantes os conceitos ê categorias interpretativas que formulou e que se tornaram clássicos nas ciências sociais.
Weber distingue no conceito de política duas acepções, uma geral e outra restrita. No sentido mais amplo, política é entendida por ele como “qualquer tipo dê liderança independente em ação”. No sentido restrito, política seria liderança dê um tipo dê associação específica; em outras palavras, tratar-se-ia da liderança do Estado. Este, por sua vez, é defendido por Weber como “uma comunidade humana que pretende o monopólio do uso legítimo da força física dentro de determinado território". Definidos esses conceitos básicos, Weber é conduzido a desdobrar a natureza dos elementos essenciais quê constituem o Estado ê assim chega ao conceito dê autoridade ê dê legitimidade. Para quê um Estado exista, diz Weber, é necessário quê um conjunto dê pessoas (toda a sua população) obedeça à autoridade alegada pêlos detentores do poder no referido Estado. Por outro lado, para quê os dominados obedeçam é necessário quê os detentores do poder possuam uma autoridade reconhecida como legítima.
A autoridade pode ser distinguida segundo três tipos básicos: a racional-legal, a tradicional e a carismática. Esses três tipos dê autoridade correspondem a três tipos dê legitimidade: a racional, a puramente afetiva e a utilitarista. O tipo racional-legal tem como fundamento a dominação em virtude da crença na validade do estatuto legal e da competência funcional, baseada, por sua vez, em regras racionalmente criadas. A autoridade desse tipo mantém-se, assim, segundo uma ordem impessoal e universalista, e os limites de seus poderes são determinados pelas esferas de competência, defendidas pela própria ordem. Quando a autoridade racional-legal envolve um corpo administrativo organizado, toma a forma dê estrutura burocrática, amplamente analisada por Weber.
A autoridade tradicional é imposta por procedimentos considerados legítimos porquê sempre teria existido, e é aceita em nome de uma tradição reconhecida como válida. O exercício da autoridade nos Estados desse tipo é definido por um sistema dê status, cujos poderes são determinados, em primeiro lugar, por prescrições concretas da ordem tradicional ê, em segundo lugar, pela autoridade dê outras pessoas que estão acima dê um status particular no sistema hierárquico estabelecido. Os poderes são também determinados pela existência dê uma esfera arbitrária de graça, aberta a critérios variados, como os de razão de Estado, justiça substantiva, considerações dê utilidade e outros. Ponto importante é a inexistência de separação nítida entre a esfera da autoridade e a competência privada do indivíduo, fora de sua autoridade. Seu status é total, na medida em que seus vários papéis estão muito mais integrados do que no caso de um ofício no Estado racional-legal.
Em relação ao tipo de autoridade tradicional, Weber apresenta uma subclassificação em termos do desenvolvimento e do papel do corpo administrativo: gerontocracia e patriarcalismo. Ambos são tipos em que nem um indivíduo, nem um grupo, segundo o caso, ocupam posição de autoridade independentemente do controle de um corpo administrativo, cujo status e cujas funções são tradicionalmente fixados. No tipo patrimonialista de autoridade, as prerrogativas pessoais do "chefe" são muito mais extensas e parte considerável da estrutura da autoridade tende a se emancipar do controle da tradição.
A dominação carismática é um tipo de apelo que se opõe às bases de legitimidade da ordem estabelecida e institucionalizada. O líder carismático, em certo sentido, é sempre revolucionário, na medida em que se coloca em oposição consciente a algum aspecto estabelecido da sociedade em que atua. Para que se estabeleça uma autoridade desse tipo, é necessário que o apelo do líder seja considerado como legítimo por seus seguidores, os quais estabelecem com ele uma lealdade de tipo pessoal. Fenômeno excepcional, a dominação carismática não pode estabilizar-se sem sofrer profundas mudanças estruturais, tornando-se, de acordo com os padrões de sucessão que adotar e com a evolução do corpo administrativo, ou racional-legal ou tradicional, em algumas de suas configurações básicas.

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processus disse...

Olga Benário Prestes





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Mulher linda, alta, de cabelos escuros e olhos azuis, Olga nasceu em Munique, cidade alemã. Desde cedo participou de atividades comunistas e, graduada pelo KOMINTERN – a Terceira Internacional – recebeu a mais importante tarefa de sua vida: participar da realização de uma Revolução Comunista no Brasil.

No Brasil, já casada com Luís Carlos Prestes, líder do movimento que entrará para a história brasileira como “Intentona Comunista”, Olga foi fundamental para o andamento da revolução. Morando no Rio de Janeiro, através das inúmeras reuniões, conviveu com todos os integrantes da liderança do movimento no meio do qual nasceram grandes amizades.

Com o fracasso da revolução e a sua conseqüente prisão, Olga, grávida de sete meses, é entregue a Hitler por Vargas. Sendo deportada para a Alemanha e longe do Brasil, país que aprendeu a amar e respeitar, Olga Benario tem sua primeira e única filha, Anita Leocádia, uma alegria no meio de tanto sofrimento.

Em um campo de concentração da Alemanha nazista, Olga vivencia os últimos dias de sua vida. Morta por um gás letal, ela ainda vive, mas como uma importantíssima pessoa que deixou o seu valor na história do comunismo mundial e que fez do seu ideal de vida um sonho para vários povos de todo o mundo.

Tempos de Conspiração







Membro do Partido Comunista e namorada de Otto Braun, em 1926 liderou o processo de sua remoção da prisão de Moabit, onde estava retido sob acusação de conspiração contra o Estado e alta traição. Tornou-se vital o seu exílio na União Soviética.

Em Moscou o casal se instalou no Hotel Desna, a seguir foram transferidos para um edifício destinado aos jovens estrangeiros.

Duas semanas após ter chegado a Moscou, Olga e Otto participam de um curso de formação política e, quando chamada ao palco para dar o seu depoimento sobre os eventos de Moabit Olga, muito emocionada e aplaudida, confessou:

"_ Eu gostaria que vocês soubessem que ali eu cumpri duas tarefas: uma do partido e outra do meu coração."

Era a consagração de Olga. Passa a crescer no Partido e suas atribuições aumentam correspondentemente, o que leva Otto à exasperação dos ciúmes.

Ao final de 1931, Olga seria escalada para sua primeira missão internacional, em Paris. A notícia de que Olga ficaria fora por tempo indeterminado devido a uma operação internacional, foi a gota d’água para Otto. Eles romperam o romance e Otto contou que tinha outra mulher. Foi quando Olga percebeu em si, pela primeira vez, o sentimento que tanto condenava no companheiro: ciúme. E é também se remoendo em ciúmes que ela viaja a Paris.

Voltando a Moscou, recebe a notícia de que lhe haviam dado o mais alto cargo da hierarquia de uma organização comunista. Tinham acabado de aclamá-la como presidente de sua Célula, por unanimidade. A seguir, um prêmio: Olga participou – sempre com grande entusiasmo – de um curso de pára-quedismo e pilotagem de aviões. Após uma simulação de vôo, ela ouviu um latino-americano contando o caso da “Coluna Prestes” e ficou impressionada com o feito: 25 mil quilômetros a pé, enfrentando tropas regulares de um governo ditatorial, contra ele lutando sempre mas terminou sem lograr seu propósito principal, mas sem jamais sofrer uma única derrota. Não imaginavam que Prestes estava ali mesmo, em Moscou, a poucos metros de distância de onde se encontravam.

Prestes estava ali na condição de engenheiro. Sua vida não era simples; a ele não eram destinadas algumas das regalias oferecidas que o governo soviético ofertava às altas autoridades comunistas de outras partes do mundo. Nas horas vagas, participava de conferências ou reuniões do Partido Comunista e foi num desses encontros que ouviu falar em Olga pela primeira vez.

Foi com grande felicidade que, em fins de 1934, Prestes recebeu a notícia de que ingressaria no Partido Comunista Brasileiro devido, inclusive, à pressão de Moscou neste sentido – à ocasião, havia divergências contra ele dentro do Partido no Brasil. Sua primeira missão para o KOMINTERN: liderar uma revolução que tirasse o Brasil da ditadura do Estado Novo e do Capital e o inserisse no mundo feliz do comunismo internacional. Olga foi designada chefe de sua segurança pessoal.

O Primeiro Amor de Prestes

Olga e Prestes vão para Leningrado, onde chegam às 8 horas da manhã do dia seguinte. À noite, partem para Helsinque, e de lá, para Estocolmo. Olga, por medida de segurança, decide que irão passar a noite em Amsterdã onde um contato poderia fornecer-lhes documentação segura. O casal ficou três semanas a espera do contato em Amsterdã mas, considerando o perigo de ficar tanto tempo em um só lugar, decidem-se por partir, como estavam, para Bruxelas.

As três primeiras semanas de viagem permitiram que o casal se conhecesse melhor. O medo de serem descobertos e presos, levou Olga a querer sair também de Bruxelas. Tomaram um trem e deslocaram-se a Paris. Viajariam como um casal em lua-de-mel.

O contato que eles acabaram por perder em Amsterdã e Bruxelas finalmente aparece em Paris. No dia 8 de março, recebem documentos novos e fazem mais alguns ajustes a fim de solidificar sua aparência de plena legalidade. Nada melhor para isso como um visto de entrada... nos EUA! O consulado norte-americano em Paris concedeu o visto sem problemas, na terceira semana de março viajaram usando as identidades de Antônio Vilar e Maria Bergner Vilar.

A fachada que usavam – recém-casados – obrigava Olga e Prestes a intimidades imprevistas. Um casal em lua-de-mel não apenas dorme no mesmo quarto, mas na mesma cama. Além disso, aproximava-os a afinidade intelectual e política, cada vez maior entre os dois, além do fato de serem jovens, bonitos e entusiasmados com a perspectiva de estarem às portas da revolução. Para um homem de 37 anos, Prestes vivera precocemente toda a sorte de experiências políticas: liderara uma rebelião militar, conspirara contra governos, fora preso e exilado, convivera com os mais importantes dirigentes comunistas na União Soviética. Mas o rigor, a disciplina e a dedicação à causa tinham cobrado dele um preço alto: até então Luís Carlos Prestes nunca tinha estado com uma mulher. A orfandade prematura levou-o, aos dez anos de idade, a tornar-se o chefe de sua família. O pouco tempo que lhe sobrava da escola militar era dedicado aos estudos. A mãe não permitira que ele trabalhasse: preferia ela fazê-lo, com a condição de que o filho se entregasse aos livros e fosse o primeiro aluno da classe. A vida da família suburbana do Rio de Janeiro era tão difícil que ele teve de obter permissão especial para andar fardado fora da Escola Militar: Prestes não dispunha sequer de trajes paisanos para vestir. Durante a Coluna ele se sentira na obrigação, enquanto comandante, de dar o exemplo de disciplina: ao contrário de muitos de seus comandados, não se envolveu com as mulheres que acompanharam a marcha. A política e a preocupação com a educação das quatro irmãs tinham-lhe roubado todo o tempo. E se Prestes chegara aos 37 anos sem ter tido uma namorada, uma paixão, uma mulher, não poderia haver circunstância mais propícia para começa: estava em alto mar, num camarote luxuoso, acompanhado de uma belíssima mulher, comunista e revolucionária como ele. Quando o Ville de Paris atracou no porto de Nova York, na manhã de 26 de março de 1936, o que até então era uma ficção, montada pela Internacional Comunista, tinha virado realidade: Como seus personagens Antônio Vilar e Maria Bergner, Prestes e Olga eram marido e mulher. Passaram a lua-de-mel em Nova York. Pegaram um trem para Miami, onde iniciaram a viagem para o Brasil, passando por Santiago e Buenos Aires, via aérea. Na Argentina, arrumaram toda a documentação para entrar no Brasil. Assim, na madrugada do dia 15 de abril, os dois embarcaram no aeroporto Santos Dumont. Quando o dia amanheceu o avião já voava baixinho. Um avião não tem grandes janelas, somente pequeninas escotilhas. Foi através delas que Olga teve seu primeiro alumbramento com o Brasil. Habituada à Europa, ela nunca imaginara tal luminosidade - um sol fortíssimo batia sobre o verde escuro da mata e o azul do mar, divididos pelo risco branco e interminável da areia da praia.

Prestes e Olga desembarcaram em Florianópolis, pegaram um taxi até Curitiba, de lá pegaram outro, com destino a São Paulo, onde se hospedaram num confortável hotel no largo do Arouche. Mais tarde Olga travou conhecimento com um simpatizante, o excêntrico milionário Pavarenti, que os levou para a sua casa de campo no bairro de Santo Amaro. No dia seguinte, Miranda, secretário-geral do partido comunista, recebia a notícia de que Prestes estava no Brasil.

Ao Brasil, atravessando percalços



Anúncios em jornais de todo o mundo e todos os matizes ideológicos da época, dizendo que Prestes estaria retornando ao país, levaram Getúlio Vargas a exigir da polícia política redobrada precaução. Filinto Muller, chefe de polícia da cidade do Rio de Janeiro, na prática uma espécie de “ministro da Justiça” de Getúlio, incumbiu-se de organizar os órgãos de segurança estatal para “recepcionar” o casal. Contudo, não apenas os órgãos de segurança os aguardavam. Além de Prestes e de Olga, um pequeno grupo de comunistas internacionais iniciava viagens discretas e sinuosas. Um dos participantes, Arthur Ewert, era antigo conhecido de Olga. Junto com ele, sua mulher Elise, apelidada de Sabo; o argentino Rodolfo Ghioldi, de pseudônimo de Luciano Busteros, e sua mulher Carmem Ghioldi, que viajava com seu nome verdadeiro; o norte-americano Victor Allen Barron; os belgas León-Jules Vallée e sua mulher Alphonsine, com os nomes verdadeiros; o alemão Paul Gruber e sua mulher Érika. A larga experiência do grupo – pequeno mas qualitativo – enviado ao Brasil era prova cabal da completa credulidade que a União Soviética havia depositado no sucesso da insurreição no Brasil.





Mãos à Obra!



Assim que chegaram ao Rio de Janeiro, Olga e Prestes se hospedaram num hotel e passam a procurar casa para morar. Escolhem uma na Rua Barão da Torre, nas imediações da casa dos Ewert. Devidamente instalados, encontraram-se pela primeira vez com seus companheiros na casa dos Ewert, e ali mesmo distribuem as tarefas iniciais: Erika trabalharia como datilógrafa na casa de Ewert e, quando necessário, como motorista dos Villar; Gruber, técnico em explosivos, instalaria num pequeno cofre da casa de Prestes e Olga um sistema de alarme eficiente, capaz de impedir o acesso de estranhos ao dinheiro e à documentação ali depositada; Victor Barron, especialista em radiotelegrafia, ficaria com a tarefa de construir um radiotransmissor para que os revoltosos pudessem comunicar-se entre si, e com o KOMINTERN. León-Jules Vallée e sua mulher cuidariam das finanças.

Na década de 20, o Movimento Revolucionário da recém fundada Aliança Nacional Libertadora ganhava adeptos das classes desfavorecidas da sociedade da época.

Seus ideais eram baseados na luta contra o fascismo, contra o imperialismo, o subdesenvolvimento e o latifúndio. A ANL contava com organizações diferentes: de operários, comunistas, socialistas, liberais, cristãos e os militares experientes das revoltas tenentistas, de 1922 a 1924. Tinha como líder Luís Carlos Prestes que, na presidência, estimulava a agitação aliancista. O movimento ganhava força de uma verdadeira revolução. Os aliancistas iam para as ruas, faziam passeatas deixando claro seu propósito de atingir o governo.

O avanço da ANL assustava o governo Vargas. Uma carta enviada por Luís Carlos Prestes propondo uma revolução foi o pretexto para Vargas decretar a ilegalidade do PCB e da Aliança como partido. A polícia tentava descobrir o paradeiro do presidente da Aliança que, devido a um golpe comunista, conseguiu simular a sua estadia no exterior. Isto fez o governo desviar as atenções dos manifestantes.

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Começa a mobilização

O golpe desferido pelo governo abalou o movimento. Vários dos revoltosos abandonaram a Aliança. A ANL passara a ser um aparelho clandestino mantido basicamente pelos comunistas revolucionários. Cabia a Prestes executar na ANL as decisões que o partido tomava.

A predominância do Partido Comunista sobre a Aliança, juntamente com a linha insurrecional, que passou a orientar o movimento, provocou a natural deserção dos burgueses ali a contrabando.

O tom da carta de Miguel Costa, companheiro da Coluna, é de despedida. Ele propõe a continuação da luta na legalidade, dando sugestões: a criação de organizações partidárias em cada estado, com programas iguais a da ANL só que com outra denominação. Prestes envia uma carta para Miguel pedindo a ele que permaneça na ANL e mantém a defesa intransigente da tomada do poder. A despeito dos fatos informarem o contrário, Prestes considerava que a revolução estava próxima...

Jornais conservadores denunciavam a presença de Prestes em vários pontos do país. A imprensa Comunista praticava a contra-informação neste sentido: publicava, por exemplo, que Prestes estava fora do Brasil. O movimento revolucionário ocorreu de maneira assíncrona, surpreendendo mesmo os líderes. Infelizmente, porém, a correlação de forças estava muito mais favorável a Vargas naquele instante.

Em 23 de novembro, soldados e sargentos do vigésimo primeiro batalhão de caçadores de Natal tomavam a guarnição militar da cidade. O jornal Liberdade anunciava que o poder havia passado para a ANL e estava instalado o Governo Popular Revolucionário. Vários fatos se sucederam. A revolução durou 5 dias. Houve movimentos revolucionários em vários pontos do Brasil, como o de Recife, por exemplo, que durou 48 horas. Olga, Prestes e os demais camaradas se reuniram para decidir o que fazer a respeito das revoltas não programadas.

Todos eram contrários ao início da insurreição como estava se dando. Todos, exceto Prestes. Depois de uma grande discussão, decidiu-se por iniciar a insurreição no Rio de Janeiro; Prestes teve o voto de Minerva sob o argumento de que a Marinha estava ao seu lado. Decidiram o plano da revolução. Prestes despachou mensageiros para todas as guarnições onde havia oficiais aguardando ordens para o início do levante. Decidiu também que era necessário uma nova casa para ele e Olga, na zona norte, mais próxima ao complexo da Vila Militar. Mandou Miranda orientar Barron, para por o rádio em funcionamento a fim de poderem informar ao KOMINTERN a decisão do levante. No momento que os revoltosos tomassem as unidades, poucos minutos seriam suficientes para que Prestes assumisse, da Vila Militar, o controle de toda a Nação.

Prestes redigiu um manifesto informando sobre seus propósitos e convocando a população à adesão. Pela primeira vez se admitia sua presença no Brasil. Ele e Olga se mudaram para a casa nova. À noite do dia 26 de novembro, Barron ligou a estação de rádio e transmitiu ao KOMINTERN a decisão sobre a eclosão do levante. A revolução comunista brasileira começaria às 3 horas da madrugada do dia 27 de novembro.



Mesmo entre companheiros, todo o cuidado é pouco...



Na prática, a revolução começou às 3h e foi abandonada às 13h. Nenhuma das guarnições da Vila Militar se levantou. A revolta ficou restrita ao 3º Regimento de Infantaria, e foi sufocada em poucas horas.

Teve suas poucas horas de aparente glória, o que não conteve a repressão por parte das forças governistas. Antes mesmo da rebelião, o Brasil já estava em Estado de Sítio decretado por Vargas. Esta situação se prolongou e, com ela, a repressão aos comunistas, tão grande que lotou as cadeias em pouco tempo. Mesmo assim, um mês depois de desencadeada a repressão, alguns dos líderes do movimento ainda estavam ilesos.

A 26 de dezembro foram presos Arthur Ewert e Sabo. Ao saber de tal fato Olga e Prestes se mudaram com receio de também serem encontrados. Athur Ewert e sua esposa foram submetidos a tantas torturas e sevícias que ele ficaria completamente louco.

Ewert tinha esperança de que a polícia brasileira não conhecesse sua verdadeira identidade, porém Filinto Muller já a havia conseguido com o Serviço de Inteligência Britânica.

Junto com uma montanha de papéis, documentos, manuscritos, cartas e bilhetes apreendido na casa de Ewert, a polícia conseguiu com a doméstica Deolinda Elias informações sobre todos os freqüentadores da casa. Conseguiram o endereço de Prestes, invadiram sua casa e abriram o cofre. Com a falha dos dispositivos instalados Paul Gruber descobriu-se ser agente do MI-5, o serviço secreto britânico, infiltrado. Ele e sua mulher, Erika, tinham conhecimento de praticamente todos os planos da insurreição de 27 de novembro.

Filinto Muller folheou, os documentos apreendidos na casa de Olga e Prestes em Ipanema. O acervo encontrado pela polícia na casa de Arthur Ewert não era menos abundante. No entanto, alguns documentos chamaram particularmente a atenção dos policiais: os relatórios minuciosos sobre a vida pessoal e as atividades de delegados da polícia política e o salvo conduto dado por Prestes a Berger na véspera da revolta.

Muller passou mais uma vez pela antiga casa de Olga e Prestes, e deu uma enigmática ordem aos investigadores:

“_ Antes de fechar a casa, desamarrem aquele cachorro que está no quintal e levem-no para o meu gabinete – referindo-se ao animal de estimação que Prestes havia ofertado como um presente a Olga.”

Muller comunicou a Vargas o resultado da operação e decidiu confirmar junto ao Departamento de Estado norte-americano a verdadeira identidade de Harry Berger (Arthur Ewert). Sem sucesso apelou para o cônsul dos EUA em Berlim.

Ewert e Sabo resistiam milagrosamente à violência dos policiais alemães e brasileiros que os seviciaram brutalmente. Sua capacidade de resistência surpreendia até aos torturadores.

No dia 6 de janeiro, Muller anunciou à imprensa a prisão efetuada 11 dias antes, como sendo resultado das investigações brasileiras, e negando torturas.

Sucessivamente prenderam Miranda (secretário-geral do partido comunista) e Elza, sua mulher, notícia divulgada 4 dias depois do fato. Enquanto presos sem acusação ou sem o reconhecimento oficial de seu aprisionamento, estariam sujeitos também a toda a espécie de torturas.

Olga e Prestes decidem se mudar novamente, desta vez escolhendo o Méier, um bairro operário que aparentava ser o lugar ideal: longe da polícia. Lá eles morariam junto com um casal também comunista foragidos da polícia: Manoel dos Santos e Júlia dos Santos. Valeram-se da ajuda de Victor Barron, que ainda não havia sido importunado pela repressão. Levavam uma bagagem discreta e Prestes passaria a manter contato com Lauro da Rocha, (novo presidente do Partido), através de mensageiros.

O governo norte americano participou das investigações sobre a “conexão brasileira”, enviando um investigador: Xanthaky, que falava fluentemente português e espanhol.

A primeira tarefa de Xanthaky foi interrogar Ewert e Elise. O estadunidense ficou impressionado com o que viu na cela. Ewert dramaticamente enfraquecido, porém não acrescentou nada ao investigador, só procurou tirar proveito da situação, pois sabia que enquanto a visita durasse não haveriam torturas.

Xanthaky, na saída, pediu aos policiais que transferissem Elise para a cela de Ewert, atendendo ao pedido deste, e procurou saber mais sobre Prestes. A única informação que conseguiu colher dos policiais, é de que eles tinham ordens de não trazê-lo vivo.

O investigador transmitiu um minucioso telegrama ao Departamento de Estado sobre a conversa que mantivera com Ewert e Elise.

É possível resistir à tortura física?



A polícia descobriu Rodolfo Ghioldi através de Elvira, mulher de Miranda, que o havia reconhecido. Ele e sua esposa foram presos num trem que efetivara uma parada em Jacareí. Na prisão, percebe que Miranda estava ajudando os policiais e assim, de nada adiantaria mentir. Ele identifica León-Vallée numa foto. Com isso, os policiais prendem León na esperança de que ele os levasse até Pretes. Rodolfo também deu o nome e endereço de um americano, Victor Allen Barron (que ainda não despertava nenhuma suspeita nas forças de repressão), e que foi preso mais tarde. Tentou se defender mas não conseguiu explicar como tinha tanto dinheiro sendo um modesto representante da John Reiner & CO, fábrica de motores de Nova York, e não tinha vendido uma só unidade. Também foi barbaramente torturado.

A prisão de um autêntico cidadão norte-americano caiu do céu para a embaixada dos Estados Unidos, que ganhava, assim, um pretexto legalmente indiscutível para intrometer-se ainda mais nas investigações da polícia brasileira. A embaixada americana destacou Xanthaky para que pudesse interrogar Allen Barron, e o encontrou em estado lastimável. Ele exigiu da polícia brasileira melhores tratos, mas não foi atendido.

Por fim, Ghioldi ofereceu de presente aos policiais uma informação absolutamente nova: Prestes estava casado com uma mulher clara, provavelmente estrangeira - pois sempre se comunicava com ele em francês - e que ficava permanentemente a seu lado. Ghioldi ignorava o sobrenome da mulher, mas tinha absoluta certeza de seu nome: Olga.



A Ignorância do Poder constituído...



O delegado Antônio Canavarro, a partir das informações dadas pelo dirigente comunista argentino, Rodolfo Ghioldi, enviou um ofício ao capitão Miranda Correia solicitando a presença de Olga de Tal no cartório, para prestar declarações.

Ao receber o recado e as novas informações, Miranda Correia logo as transmitiu ao chefe da polícia, Filinto Muller, que era inimigo figadal de Prestes desde a época da Coluna.

Chegou a época do carnaval. O carnaval daquele ano foi transformado para se adaptar às ordens do chefe da polícia: não se podia usar máscara ou fantasias e a festa não deveria passar das 22h. Ainda assim, Olga, que nunca havia visto um carnaval antes, ficou deliciada com as marchinhas. Foi uma descontração dentro de uma situação penosa, que só lhe permitia ir ao banheiro à noite, já que este se localizava fora da casa em que morava, e toda precaução era necessária a fim de que ela e Prestes não fossem descobertos. Ali, novamente o destino a colocava a cumprir duas tarefas: uma do partido e outra de seu coração.

O casal se informava acerca do que estava acontecendo no mundo com o auxílio de Manoel, seu companheiro de moradia, que lhes trazia jornais incluindo anotações feitas por espiões comunistas dentro dos presídios. Um deles chamou a atenção: os policiais começavam a desconfiar da existência de espiões na polícia. Enquanto isso a polícia continuava a rastrear Prestes por toda a cidade.

A polícia, por informações tortuosas, resolveu verificar a possibilidade do Méier como último refúgio do casal Prestes. A chuva era intensa quando os “cabeças de tomate”, apelido que os cariocas haviam atribuído aos soldados que usavam um chapéu vermelho, chegaram à Rua Honório. Eles revistavam todas as casas por onde passavam. Ao baterem à porta de Prestes, dona Júlia foi atender. Ao saber que era a polícia Prestes tentou fugir, mas a casa estava cercada. Ele foi logo reconhecido, e os policiais receberam a ordem de entrar atirando. Vários soldados e policiais civis avançou sobre dona Júlia, de metralhadoras engatilhadas, em direção ao pequeno corredor por onde Prestes entrara. Foi então que aconteceu algo inesperado. Uma mulher enorme, vistosa, pula na frente de Prestes, protegendo-o com o próprio corpo e emite um grito. Não era um pedido de clemência, era uma ordem:

“_ Não atirem! Ele está desarmado!” O gesto inesperado os deixou paralisados e salvou a vida do Cavaleiro da Esperança. Trouxeram o cachorro para reconhecer seus donos. Sem demonstrar o menor traço de temor, Prestes, que estava de pijamas, pediu a Galvão para trocar de roupa mas não conseguiu:

“_ O senhor vai assim mesmo.”

Na rua, tentaram colocá-los em carros separados, mas Olga percebeu que aquilo significaria a morte de Prestes. Agarrou-se ao marido com tamanha força que não houve a menor possibilidade de separá-los. Assim, transportaram-nos juntos para a sede da Polícia Central. Havia tantos policiais a guardá-los dentro do veículo que Olga teve de ir sentada no colo do marido. O comboio atravessou a cidade despertando os moradores das ruas por onde passava: sirenes ligadas, tiro para o alto, garrafas de cachaça correndo nos caminhões que transportavam os 200 soldados molhados.

Quando desembarcaram no saguão do edifício, Olga e Prestes foram separados. Miranda Correia informou que eles seriam ouvidos em salas diferentes. Prestes foi colocado dentro de um pequeno elevador, sempre acompanhado por policiais armados, e ela levada para outra sala. Quando a porta gradeada do elevador se fechou, os dois se olharam pela última vez.



"Suicidado" pela polícia política

Logo ao chegar na policia central, Prestes foi informado de que Barron o havia denunciado e depois cometido suicídio. Custa a acreditar. O fato de o suicídio haver ocorrido num salto de menos de um andar de altura tornam a história ainda menos plausível. Prestes fica indignado com a notícia do “suicídio” de Barron e, ao ser interrogado, mantinha o mais estrito silêncio ou, no máximo, respondia monossilabicamente.

Filinto Muller encontrou documentos também na casa em que Prestes fora preso, além de algum dinheiro. Em um desses documentos surgiu o nome “tribunal vermelho”: o processo pelo qual Elvira ou Garota teria sido justiçada. Elvira fora acusada e encontrada culpada de traição pelo partido comunista. Interrogada por León-Jules Vallée, foi logo a seguir executada. Este fato deu ensejo a uma acusação de “assassinato” imputada a Prestes.

A morte de Barron jamais foi questionada pela imprensa brasileira. O governo americano montou uma comissão para apurar os fatos.

Após o esfriamento do caso Barron, a notícia de que Ewert e Elise estavam sendo torturados chegou à imprensa. Logo era manchete nos principais jornais do mundo, que cada vez mais criticavam o Brasil pelo tratamento aos estrangeiros. Em público, os policiais brasileiros afirmavam que “todos os prisioneiros políticos eram bem tratados.” Mas não admitiam inspeção nos presídios!



Alianças do Estado Novo com o Eixo

A esposa de Prestes, nos interrogatórios, insistia em dizer que era brasileira e que se chamava Maria Vilar. Porém, após as investigações da polícia brasileira junto à GESTAPO, Polícia Secreta Nazista, descobriu-se tratar de Olga Benario, uma oficial de alta patente da Terceira Internacional.

Descoberta sua verdadeira identidade, Olga Benario foi mandada para outro presídio. Lá ficou numa cela coletiva junto à sua amiga Sabo e outras mulheres que haviam participado direta ou indiretamente da revolta de 27 de novembro. Ao lado de sua cela ficava uma cela masculina. Homens e mulheres trocavam informações secretas através de um orifício na parede, que também servia como veículo à troca de palavras de amor. Nesta mesma prisão e precisamente à mesma época, também se encontrava Graciliano Ramos.

Nesse período de encarceramento, Olga se descobriu grávida. Esposa de brasileiro e agora esperando dele uma criança, sentia-se um pouco mais segura. Em vão. Na surdina se urdia a sua transferência às autoridades nazistas.



Xenofobia e medo



Para Olga era o pior dos mundos ir a um governo centrado principalmente no ódio a judeus e comunistas.

Num dos dias de visita na cadeia, Olga soube que iriam expulsá-la definitivamente e não perdeu tempo em conseguir um advogado, Heitor Lima, que três dias após a aceitação da defesa proposta por ela entrou com pedido de habeas corpus pretendendo, com isso, evitar que Olga fosse entregue ao governo nazista.

O desfecho do pedido não podia ser mais trágico. O pedido de habeas corpus foi negado e com isso Olga é enviada grávida para um Campo de Concentração nazista.



Inconformismo

Em função da notícia da recusa do pedido de habeas corpus de Olga, todos os presidiários sentiram-se lesados e fragilizados. Há uma tentativa frustrada de rebelião.

Prestes, mesmo preso em um cubículo, por vezes consegue informar-se acerca do que está ocorrendo com Olga. Sua mãe e sua irmã, Leocádia e Lígia, em Moscou, sabendo da prisão dele e de Olga partem para a Espanha, de onde iniciam uma campanha internacional pela liberação de seus passaportes brasileiros, assim como pela libertação dos presos políticos do país.

A campanha, contudo, não alcança os EUA, já em franca oposição ao nazismo, o que seria de fundamental importância para a conquista do intento das duas idealistas.

Olga, Elise Ewert e Carmen Ghioldi, foram entregues à polícia política nazista por decreto do governo Vargas. Aguardando o momento de serem deportadas, amigos das três se mobilizaram o quanto podiam para evitar a transferência que, se sabia, ser um passaporte para a morte. Através de cartas e pedidos de habeas corpus, Maria e Luiz Werneck de Castro tentaram adiar a extradição de Olga, mas em vão. Heitor Lima também tentou; escreveu uma carta a D. Ivete Vargas, esposa do presidente, mas de nada adiantou.

A viagem para a Alemanha era retardada justamente porque se aguardava um navio aliado ao Eixo que fosse direto, sem escalas, do Brasil à Alemanha. Caso fizesse alguma escala as prisioneiras seriam libertadas como já acontecera em outras ocasiões. O La Coruña, navio que seria encarregado de levar Olga e suas camaradas à Alemanha, atracaria no cais do porto do Rio de Janeiro no dia 23 de setembro de 1936. Sabendo disso, Filinto Muller organizou toda uma estratégia para transportar Maria Prestes ao navio.

Carlos Brandes vai até a Casa de Detenção e convida Olga a sair do presídio com o pretexto de levá-la ao hospital, para que esta tivesse o filho em segurança. Os detentos não acreditam em Brandes e passam a abrir as celas, com gazuas, espécie de chaves confeccionadas por um dos presos, reservada para casos especiais, ou arrombando-as. Sem conseguirem resistir, os presos ainda conseguiram impor uma condição, a de que junto a Olga fossem dois outros presos. Não adiantou. Olga sequer chegou a descer no hospital. O comboio militar seguiu até o cais do porto sob uma chuva fina. Quando foi retirada da ambulância, ainda deitada na maca, a caminho da escada do navio, Olga pôde ver, rapidamente, entre os pingos de chuva, o nome La Coruña gravado no casco. Por um instante, teve esperanças de estar sendo embarcada num navio espanhol. Mas ao mover a cabeça um pouco, virou os olhos para cima e viu, tremulando no mastro principal, uma bandeira com a suástica negra ao centro. Suas esperanças eram cada vez menores.



Uma heroína entre prostitutas e ladras...



Dez quilos mais magra, Olga, grávida, foi levada para o La Coruña. O investigador João Guilherme Neuman foi encarregado de escoltá-la. Ele contou a Olga que Elise Ewert também estava sendo embarcada, na cabine vizinha a ela.

Olga foi embarcada contra as leis da navegação por estar grávida. Ela pediu que instalasse uma companhia na sua cabine para a eventualidade de sentir-se mal.

A primeira noite foi de insônia e vômitos por causa do movimento do navio e do barulho do motor. No primeiro dia, Olga passou trancada na cabine, no segundo, ela e Sabo colocaram a cadeira no corredor e ficaram conversando. No quarto dia de viagem o navio chegou a Salvador; foi uma parada rápida. Com o dinheiro que tinha, Olga comprou algumas coisas.

No dia 3 de outubro eles ultrapassaram a linha do Equador. Olga e Elise receberiam autorização após o jantar para olhar pelas escotilhas o dirigível alemão Zeppellin.

Na noite de 12 de outubro o La Coruña foi surpreendido com a presença de outro navio, mas era apenas um barco português perdido em alto-mar.

Às seis horas da manhã do dia 18 de outubro o navio atraca em Hamburgo. A tropa de choque nazista estava ali para receber Olga e sua amiga.

Pouco depois do meio-dia Olga chega a Berlim. Vai diretamente para a temida prisão de mulheres. Chegando lá ganhou a roupa padrão das prisioneiras e teve a cabeça raspada. A cela era um cubículo de dois metros por dois e com um colchão fino sobre uma laje de concreto.

Olga ainda não tinha chegado a Hamburgo quando Lígia e Dona Leócadia receberam uma carta contando o que acontecera à esposa de Prestes. No dia 11 de novembro foram ao quartel-general da polícia secreta, para ver a mulher de Prestes, mas o máximo que conseguiram foi deixar comida e roupas. Voltaram à França com a vaga promessa que seriam avisadas sobre o nascimento do bebê.

Na madrugada de 27 de novembro de 1936, exatamente um ano após a fracassada revolução, nasceu Anita Leocádia, um bebê gorducho e saudável.

Só no começo de fevereiro, quando Anita entrava no terceiro mês de vida, Dona Leocádia e Lígia souberam de seu nascimento. O ofício da Cruz Vermelha transmitiu à avó o risco que a garotinha corria: assim que o leite da mãe secasse, ela seria entregue a um orfanato nazista.

A campanha organizada a partir da França passou a reclamar desde então, a libertação de Prestes, no Brasil e de Olga e Anita, na Alemanha. Dona Leocádia e Lígia se juntaram à irmã de Ewert.

No Rio de Janeiro, o jovem advogado Heráclito Sobral Pinto, cristão militante, resolve por conta própria defender Prestes e Arthur Ewert frente ao Tribunal de Segurança Nacional.

Prestes rejeita a oferta de defesa alegando que Sobral é um homem de mentalidade burguesa sem capacidade ou desejo efetivo de defendê-lo. Sobral Pinto não desistiu, recorreu a mãe de Prestes para que conseguisse convencer o filho a aceitar a sua defesa. Meses depois Prestes recebe um bilhete de sua mãe e acaba mudando de idéia.

A primeira intervenção de Sobral Pinto foi tentar parar com as torturas a Ewert utilizando-se até mesmo do Código Defesa dos Animais – tal o nível em que se encontrava o alemão. Também consegue para Prestes o direito de receber cartas de sua mãe: foi através de uma delas que ele soube do nascimento de sua filha.



A família intervém!

A notícia de que era pai e de que Olga estava viva deu novo ânimo a Prestes, além disso, Sobral Pinto conseguiu encaminhar suas respostas às cartas recebidas.

Em junho, Olga recebera novas notícias do marido. No dia 8 de maio Prestes fora condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional a 16 e 8 meses a prisão; Arthur Ewert, a 13 anos.

Em julho de 1937, Dona Leocádia retornou a Alemanha para tentar negociar com a GESTAPO a libertação de Olga e Anita. Mas eles não aceitaram sequer discutir o assunto, pois não consideraram nenhum parentesco entre Olga, Anita e Dona Leocádia. A única pessoa que talvez pudesse ajudá-la era a mãe de Olga.

Dona Leocádia viajou para a capital da Baviera. Ao chegar na casa da mãe de Olga, encontrou uma mãe que rejeitava a própria filha...

Poucas semanas após o nascimento de Anita, Olga conseguiu enviar um requerimento à embaixada brasileira pedindo o registro da recém-nascida como cidadã brasileira.

O advogado Sobral Pinto tentou levar o tabelião para que Prestes assinasse o requerimento de paternidade mais foi impedido pela justiça. À medida que o tempo passava a angústia ficava maior: a qualquer momento os nazistas poderiam tirar Anita de sua mãe.

Sobral Pinto, sempre persistente e insistente, conseguiu levar o tabelião à cela de Pestes. Logo depois de Prestes assinar o requerimento ele o enviou à Alemanha e, com ele, Dona Leocádia e Lígia conseguiram tirar pelo menos Anita da mão dos nazistas.

Para Olga, é o fim, mas para Anita há esperança!

Anita foi suprimida de Olga sem que lhe dissessem uma única palavra sobre o destino da filha – quando a tarefa de alguém é atormentá-lo, o esmero por vezes conquista refinamentos de crueldade. Ficou traumatizada, debilitada emocionalmente, quase enlouquece. Acreditava que Anita havia sido enviada a uma creche nazista. Aos pouco foi se recuperando e voltou a praticar atividades físicas e mentais.

Depois de um mês ela recebeu a carta de Dona Leocádia informando que sua filha estava bem e com ela. Olga ressuscitou e voltou a sonhar com a liberdade!

Nos primeiros dias de março ela foi transferida para uma nova prisão: a fortaleza de Lichtenburg. Ao chegar lá foi conduzida a uma solitária. No sexto dia de solitária recebeu a visita clandestina de Gertrud Fruchulz, uma velha amiga de Neukölln. Ela trazia alimentos para Olga, falou da fortaleza de Lichtenburg e contou que sua amiga Elise Ewert, Sabo, estava ali.

Olga as semanas seguintes sem receber qualquer notícia. Manteve-se mental e fisicamente ágil jogando xadrez mentalmente e praticando exercícios físicos.

Quando saiu da solitária seu primeiro desejo foi ver Sabo: estava magra, tuberculosa e totalmente diferente.

Durante os quase dois anos em Lichtenburg ela seria levada várias vezes a Berlim para novos a atormentadores interrogatórios.



O Campo de Concentração



O Comboio que levava Olga sai de Lichtenburg rumo ao norte.

A índole belicosa dos nazistas os levou a promover uma mudança no sistema prisional da Alemanha, transformando as cadeias em estruturas a um só tempo penais e “produtivas para a economia do Reich.”

Assim que chega ao campo de concentração, Olga percebe organização e rigidez extremas. As mulheres eram classificadas por um triângulo colocado no braço ou no peito, através do qual se identificava o motivo de seu aprisionamento. Ela não foi identificada como comunista, mas como anti-social, assim como o eram as prostitutas e ladras comuns.

Pela sua capacidade e ascendência moral, Olga recebeu dos carcereiros a missão de organizar seu local de moradia e trabalho. Isso pelo menos traz alguma ocupação útil ao espírito. Instalou hábitos de higiene e levou um reforço à auto-estima das outras presas escrevendo até mesmo uma apostila rudimentar, com ilustrações e mapas através da qual contava sua história e falava sobre os caminhos do mundo. A seguir, intimada a depor em Berlim, escreve um bilhete para a sogra.

Grandes indústrias alemãs utilizavam os prisioneiros dos campos de concentração em trabalhos forçados.

Olga recebe a notícia de que Sabo não resistiu a tuberculose que se agravou depois da chegada do inverno e morreu, tendo finalmente um fim a seus traumas e suas lembranças da tortura. Descansou...

O Reichfürere SS Heinrich Himler, em visita aos campos de concentração, ordenou que as presas fossem trancadas em suas celas. Durante a inspeção, uma mulher o xingou e ele ordenou que 80 mulheres fossem punidas como forma de aviso. Dentre as escolhidas para o castigo estava Olga Benario, violentamente chicoteada.

Certa feita uma prisioneira delatou Olga a respeito do curso de conscientização política que na prática ministrava, mesmo que em condições ainda menos que precárias e ela foi novamente torturada. Em outra oportunidade chegou mesmo a dirigir a encenação de uma peça de teatro escrita e dirigida pelas prisioneiras. Tudo foi descoberto e as presas foram levadas a passar a noite sem agasalho, no palco, sob o rigoroso inverno, etc.



Olga em seus momentos finais



O Campo de Concentração já não era unicamente feminino, chegaram prisioneiros.

As notícias vindas por parte de prisioneiras recém-chegadas se opuseram ao otimismo de Olga: Hitler havia conquistado boa parte da Europa.

A situação nos campos de concentração era de terror cada vez mais crescente. Insalubridade não apenas psicológica ou do ponto da violência física direta: Olga contraiu uma virose que quase lhe tirou a vida. Mulheres eram executadas sem motivos plausíveis. Além disso surge mais um agravante: a chegada de médicos para realizarem experiências genéticas com as presas.

O vírus da tuberculose era disseminado pelos médicos, e a todo momento mulheres morriam, assassinadas pelos médicos. Dizendo tratar-se de um vírus letal, eles aplicavam constantemente a eutanásia. Os médicos faziam outras experiências a respeito de doação de órgãos e de defesa do organismo, usando as prisioneiras como cobaias.

Aquelas perversões tratadas como pesquisas médicas não seriam o fim da loucura nazista. Até então as execuções praticadas em Ravensbruck vinham sendo feitas individualmente. No começo do inverno de 1942 começaria a “Solução Final”, o extermínio sistemático e deliberado de judeus e comunistas. Segundo notícias que corriam entre os presos, o médico Fritz Menennecke ali estaria com a função de selecionar as mulheres que poderiam ser utilizadas como mão-de-obra escrava e as que seriam eliminadas nas câmaras de gás e nos fornos crematórios.

Quando as primeiras levas de prisioneiras de Revensbruck foram removidas, as remanescentes ficavam em dúvida: estariam sendo transferidas para outros campos ou seriam eliminadas. Elas combinaram que cada uma levaria um toco de lápis e um papel onde deveriam colocar o nome do local para onde estavam sendo transferidas. Colocariam na barra da saia. A volta do caminhão trazendo as roupas usadas pelas mulheres transferidas repetiam o mesmo nome: Bernburg.

Uma cidadezinha situada a 100 quilômetros a sudoeste de Berlin, Bernburg tinha apenas um prédio mais imponente que a Igreja Luterana: um hospital para tratamento de doenças mentais. Neste hospital, seis dos 15 prédios de cindo pavimentos do hospital psiquiátrico foram ocupados por ordem de Himmler e transformados em Propriedade do Reich - camuflando as atividades que as SS passariam a exercer ali.

No subsolo do Hospital foram construídos amplos cômodos com as paredes e o chão revestidos de azulejos brancos de cujo teto pendiam chuveiros. Parecia um local para banho coletivo. Nascia a invenção macabra do nazismo: a primeira câmara de execução em massa de prisioneiros através de asfixia por gás. O primeiro teste foi realizado com os próprios alemães, soldados que se negaram a bombardear posições republicanas na Espanha, considerados desertores, foram punidos com a morte por inalação de “Zyklon – B”.

No começo de fevereiro de 1942, um pouco antes de Olga completar 34 anos, as mulheres foram reunidas no pátio central de Revensbruck para ouvir nos autofalantes do campo a relação das 200 prisioneiras que na manhã seguinte seriam “transferidas para outros campos de concentração”. Eram chamadas em ordem alfabética. Olga Benario Prestes seria a de número 150. Junto com ela iriam as amigas Tilde Klose, Irena Langer e Rosa Menzer.

Os autofalantes davam um último aviso: as prisioneiras relacionadas teriam 30 minutos para recolher seus pertences e se apresentar para o embarque. Meia hora foi o suficiente para que Olga escrevesse uma carta à filha e ao marido.

Dez dias depois, quando o caminhão voltou com as roupas das mulheres embarcadas naquela noite, Emmy Handke correu a procurar o vestido de Olga. Apalpou a barra e dela tirou um pequenino pedaço de papel onde estava escrita apenas uma palavra: Bernburg.



Guerra e Redemocratização

Vargas era uma raposa ladina. Contava em seu ministério com simpatizantes do Eixo e simpatizantes dos aliados. Abriu conversações com ambas as forças e buscou extrair o máximo de cada uma. Os EUA – aliados da URSS na Guerra –, após muita negociação e diálogo, fizeram a melhor oferta: a construção da Companhia Siderúrgica Nacional e a de bases militares no Nordeste, em troca de apoio durante o esforço de Guerra, revertendo as instalações ao governo brasileiro quando esta chegasse ao final. Ao término da Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro solicita um reatamento de relações diplomáticas com a União Soviética. Mulheres, estudantes e profissionais liberais organizam comícios em todo país, exigindo a concessão imediata de anistia política aos presos e exilados.

Getúlio Vargas promete convocar eleições ainda naquele ano. Dutra apresenta-se como candidato governista à Presidência e inclui na sua plataforma uma inacreditável bandeira: a legalização do Partido Comunista. Agora a reivindicação das ruas é pela anistia e pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte.

Em 18 de abril, Vargas assina um decreto que concede anistia aos presos políticos. Antes mesmo que o ato fosse publicado no Diário Oficial, os cinco primeiros beneficiários da medida deixam as prisões. Dentre eles estava Luís Carlos Prestes que ao sair pergunta sobre o destino de Olga e de seu amigo Arthur Ewert, que tinha sido beneficiado pela anistia mas, torturado até a loucura, talvez não tivesse condições de desfrutar da liberdade pois estava internado num manicômio no Rio de Janeiro. Quanto a Olga, não tinha nenhuma informação. Naquele momento, porém, quem elogiava o presidente da República era Luís Carlos Prestes que havia sido vitimado pela repressão dirigida por Vargas. A primeira reação contra o apoio de Prestes a Vargas parte de seu antigo advogado Heráclito Sobral Pinto que condena qualquer união nacional com o senhor presidente.

A primeira manifestação dos comunistas após longo período na ilegalidade ocorreu estádio do Pacaembu, em 1943 e teve a participação de grandes intelectuais e de uma grande massa popular. Depois da manifestação foi em direção à estação Roosevelt, onde tomaria um trem de volta ao Rio de Janeiro.

Um Telegrama dos aliados e uma carta de Olga


Cercado de amigos ele se preparava para subir a escada do vagão-leito, quando um jovem chegou correndo, abrindo passagem entre os que se despediam do chefe comunista:

_ Capitão! Capitão Prestes! Um momento, não embarque!

Temeu-se uma tentativa de agressão, mas o rapaz se identificou:

_ Sou repórter da agência de notícias United Press. Nós tínhamos pedido às sucursais européias que buscassem informações sobre Olga Benario, e acabamos de receber este telegrama sobre ela, enviado pelo correspondente em Berlim.

Ansioso, Prestes levou o pedaço de papel aos olhos e leu-o com o rosto crispado, diante do silêncio dos amigos que o fitavam. Levantou a cabeça e disse apenas três palavras:

_ Olga está morta.

Era um despacho curto, sem muitos detalhes:



“Berlim - As autoridades aliadas acabam de informar que entre as 200 mulheres executadas na câmara de gás da cidade alemã de Bernburg, na Páscoa de 1942, estava a senhora Olga Benario, esposa do dirigente comunista brasileiro Luís Carlos Prestes.”






Prestes entrou no que já começava a se movimentar rumo ao Rio de Janeiro, caminhou por entre as poltronas em silêncio, sentou-se e leu mais uma vez a notícia, antes de guardar o papel no bolso do paletó.

Só muitos anos depois é que ele receberia a última carta que Olga escrevera a ele e à filha, ainda em Ravensbrück, na noite da viagem de ônibus que a levaria à morte em Bernburg. Transcrevo literalmente pela beleza da peça e para que se possa conhecer melhor o coração da mulher.



“Queridos:

Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me despeço de vocês agora. É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não, elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito de acordo com isso, mas logo nos entenderemos muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte. Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes? Conformar-me-ia, mesmo se não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por ela haver me dado a ambos. Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha?

Querida Anita, Meu querido marido, meu garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que me esforço para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijos pela última vez.

Olga.”



Trabalho revisado a 19 de agosto de 2004



Lázaro Curvêlo Chaves



Instituto de Pesquisas Sociais Euclides da Cunha






Fonte: "Olga", de Fernando Morais, editora Alfa & Ômega
O livro é realmente IMPERDÍVEL!







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